sexta-feira, 26 de março de 2010

PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS (1980)



"Esta cidade nunca mais foi a mesma depois que o Padre Thomas se enforcou."

Repleto do melhor e do pior do cinema italiano dos anos 80 (uma das melhores safras do gênero), PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS, de Lucio Fulci, é o maior exemplo de como um filme pode ser valorizado pelo "gore", ou seja, pela quantidade de sangue e tripas que exibe. .Feito logo depois do clássico ultraviolento ZOMBIE (1979), sucesso que encabeça a lista dos melhores de Fulci, "Pavor Na Cidade Dos Zumbis" foi lançado em 1980 e mistura o gênero mortos-vivos com sessões espíritas, premonições, mortes violentas, fenônemos sobrenaturais e um livro demoníaco. Nos Estados Unidos, o título amalucado foi simplificado para "Gates of Hell" (Os Portões do Inferno), mas algumas cópias circulam com o título de "City of the Living Dead" (Cidade dos Mortos-vivos).






Muito do estilo narrativo de Fulci pode ser encontrado neste que é um dos seus primeiros filmes de horror: há os tradicionais closes nos olhos das vítimas, há as mortes extremamente violentas (algumas totalmente gratuitas e sem sentido), há a música "demoníaca" de Fabio Frizzi, há os supercloses no rosto de pessoas com expressão de pavor e em feridas abertas ou vermes rastejando.









PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS começa muito interessante, mostrando uma cidadezinha chamada Dunwich, onde o sinistro padre William Thomas (Fabrizio Jovine) passeia por um cemitério até resolver se suicidar no galho de uma árvore. Depois que ele comete suicídio, a câmera lentamente passeia por algumas lápides (ao som da música arrepiante de Frizzi) até parar em frente a um túmulo, onde um corpo putrefato lentamente sai debaixo da terra - uma citação direta a uma das cenas mais famosas de ZOMBIE (1979).

É quando descobrimos que este pesadelo faz parte das visões de Mary (Katherine MacColl, outra colaboradora habitual de Fulci, que apareceria posteriormente em THE BEYOND, de 1981,
e A CASA DO CEMITÉRIO, de 1982). Ela é uma vidente que está participando de sessão espírita no centro de Nova York. Aterrorizada com o que vê (e Fulci faz questão de mostrar isso com supercloses nos olhos arregalados da moça), Mary cai no chão entre espasmos e grita "A cidade dos mortos! A cidade dos mortos!". Surpreendentemente, o diálogo sai em alto e bom italiano!!!! Isso mesmo!!! A cópia lançada no Brasil (pela extinta Dado Group) não foi a americana, que tradicionalmente dublava (pessimamente) os diálogos originais em italiano, e sim a original!







Voltando ao filme, Mary tem um ataque de ansiedade e morre... DE MEDO! Este é um detalhe que mais tarde voltará a ser abordado, embora Fulci desperdice a idéia. A polícia chega e não acredita na história de que a vidente tenha morrido por causa de suas visões, acusando todo o grupo que participou da sessão espírita de ter usado drogas e provocado a morte da moça. É quando a sinistra Madame Teresa (Adriana Asti), que fala arregalando os olhos e virando direto para a câmera, avisa os policiais de que o terror está para começar em uma pequena cidadezinha, e que tudo está escrito em um livro de quatro mil anos atrás chamado Livro de Enoch!



Sabe-se lá o porquê dos roteiristas Fulci e Sacchetti terem incluído um livro demoníaco e antigo na história, já que ele só é citado brevemente nos dez minutos iniciais e depois esquecido sumariamente. Reparem que no posterior THE BEYOND a dupla faz a mesma coisa, mostrando um tal Livro de Eibon que também tem poderes sobrenaturais, e, ao mesmo tempo, pouca ou nenhuma relação com a história. Trata-se de mais um dos mistérios dos roteiros do horror italiano.



Paralelamente às cenas em Nova York, o filme mostra a pequena Dunwich, onde estão começando a acontecer fenômenos sobrenaturais, confirmando a previsão de Madame Teresa. Um doente mental chamado Bob (interpretado por Giovani Lombardo Radice, famoso pela cena onde é castrado em "Cannibal Ferox", de Umberto Lenzi) é considerado o responsável por algumas misteriosas mortes acontecidas no local, já que é filho de uma feiticeira, jovens garotas são encontradas mortas de medo, literalmente, e Bob é acusado de violentá-las. Mas a verdade é que elas foram atacadas pelo zumbi do padre Thomas (aquele que se enforcou no começo da história). Uma das primeiras vítimas morre quando o zumbi esfrega um monte de carne putrefata, vermes e minhocas vivas em sua boca - em cena repelente.



Voltamos a Nova York e Mary está sendo sepultada (sem passar por qualquer exame ou autópsia), enquanto um jornalista curioso, Peter Bell (o canastrão Christopher George, mais conhecido pelo seu trabalho em "O Terror da Serra Elétrica", do espanhol Juan Píquer Simon), investiga a morte misteriosa durante a sessão espírita. Em uma das grandes cenas do filme, Mary acorda no interior do caixão quando está parcialmente sepultada. Ela começa a gritar, bater e arranhar o topo de madeira do caixão, arrancando as unhas e ensangüentando todo o forro. A cena é arrepiante pela sonoplastia dos dedos sendo rasgados contra a madeira.


Por sorte (ou por "coisa que só acontece em filme, Peter estava no cemitério na mesma hora; ele escuta os gritos de Mary, pega uma picareta e quase mata a moça ao enfiar a ferramenta no tampo do caixão, atravessando-o - a ponta da picareta pára a alguns milímetros da testa da garota! É quando Fulci dá um close na tampa do caixão arrebentada e mostra o rosto pálido e apavorado de Mary gritando no interior. Um verdadeiro pesadelo!


Mary conta ao jornalista toda a história da "cidade dos mortos-vivos" mas, curiosamente, Dunwich não aparece em nenhum mapa. Eles começam a investigar, saindo a esmo de carro atrás da tal cidade.

Voltando a Dunwich, os fenômenos sobrenaturais continuam. Uma das cenas mais memoráveis é aquela em que um casal namorando num carro, perto do cemitério, é atacado pelo zumbi do padre. O rapaz é o futuro diretor Michele Soavi (de "O Pássaro Sangrento" e "A Catedral"). O "fantasma" do padre faz com que o carro pare de funcionar e as portas se tranquem. Depois, coloca a namorada de Soavi em transe, faz com que saiam lágrimas de sangue dos seus olhos (uma impressionante cena em close que até agora estou tentando descobrir como eles fizeram, porque não é "efeito de computador") e depois obriga a mocinha a vomitar seus próprios intestinos (é ver para crer!). Mais uma cena aterradora, violenta e muito nojenta concebida pelo mestre da maquiagem Gianetto de Rossi, outro colaborador habitual de Fulci e espécie de Tom Savini italiano. A chacina termina com a mocinha transformada em zumbi e apertando a parte de trás da cabeça de Soavi até seu cérebro ser espremido para fora! A cena ficou tão boa que é repetida mais duas vezes até o fim do filme!!!

No que Peter e Mary chegam a Dunwich, Descobre-se que a cidade foi construída sobre as ruínas de Salem, aquela famosa cidade das feiticeiras (o que é historicamente equivocado, já que Salem existe até hoje, no Estado americano de Massachussetts). Cadáveres desaparecem do necrotério e aparecem em casas de pessoas, mortos viram zumbis que também aparecem e desaparecem, pessoas são mortas sem qualquer motivo, paredes de concreto armado se abrem em rachaduras, uma chuva de vermes invade uma casa, seguida por uma chuva de cacos de vidro (cena citada no posterior THE BEYOND), e por aí vai. Ao mesmo tempo, Peter e Mary ficam algum tempo circulando pela cidade sem motivo e encontram aliados no psiquiatra local, Jerry (Carlo De Mejo) e na pintora Sandra (a gatinha Janet Agren, que participou do filme de canibais "Os Vivos Serão Devorados", de Umberto Lenzi).






Depois que quase todos os personagens do filme são mortos por zumbis que aparecem e desaparecem como fantasmas (e aparentemente não comem carne humana, apenas arrancam pedaços das pessoas), inclusive Sandra, que tem o topo de sua cabeça arrancado por um morto-vivo, Peter, Mary e Jerry resolvem encontrar o túmulo do padre Thomas no cemitério para dar um fim no "chefe dos zumbis". Legal é que o túmulo do padre é uma verdadeira catacumba, escura e repleto de teias de aranha e cadáveres putrefatos que vão voltar à vida e atacar os heróis.

PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS é valorizado pela figura do padre demoníaco, que tem uma cara realmente assustadora (e, num close, lembra o Drácula interpretado por Christopher Lee nos filmes da Hammer). Vale também por dois dos momentos mais violentos do cinema de Fulci, jamais superados pelo diretor: a cena onde a cabeça de Bob é atravessada por uma broca e o momento onde um dos personagens principais tem um pedaço da cabeça arrancado por um zumbi e ratos banqueteiam-se com seu cérebro (argh!).



A cena da broca é particularmente impressionante pelo seu realismo. Parece que o ator está realmente sendo executado. Em sua fixação por explicitar o máximo possível as cenas de morte, Fulci e o maquiador De Rossi fazem a broca entrar por um lado da cabeça e sair pelo outro, arrebentando a pele, sem cortes! Se fosse um filme americano, provavelmente iria cortar assim que a cabeça estivesse bem próxima da broca, mostrando um close de uma parede próxima e o sangue espirrando nela. Então, méritos para o cinema "gore" e ''Trash'' italiano, que tem colhões para mostrar barbaridades como esta!

Para resumir, o filme é uma preciosidade no Brasil porque foi lançado nos tempos do "boom" do videocassete, em 1987, e hoje é uma raridade disputada a tapa por colecionadores. Em 1995, a distribuidora Reserva Especial relançou alguns títulos de Fulci originalmente lançados pela Dado Group, como THE BEYOND (que ganhou o péssimo título de "A Casa do Além") e A CASA DO CEMITÉRIO. Misteriosamente, esqueceu de PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS. Ou faliu antes, quem sabe?
Enfim o filme é mais um dos clássicos do Horror Italiano ao lado de pérolas como ZOMBIE (1979), THE BEYOND (1981) e CASA DO CEMITÉRIO (1981).

PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS (Paura nella città dei morti viventi , Itália, 1980) - 91 minutos
Gênero: Terror
Classificação Indicativa: 18 anos
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci; Dardano Sacchetti, inspirado em história de H.P. Lovecraft Produção: Giovanni Masini
Produção Executiva: Robert E. Warner
Música: Fabio Frizzi
Fotografia: Sergio Salvati
Desenhos de Produção: Massimo Antonello Geleng
Efeitos Especiais: Gino De Rossi
Edição: Vincenzo Tomassi
Figurino: Massimo Antonello Geleng
Maquiagem: Franco Rufini; Rosario Prestopino; Luciano Vito Elenco: Christopher George (Peter Bell); Katherine MacColl (Mary Woodhouse); Carlo De Mejo (Gerry); Antonella Interlenghi (Emily Robbins); Giovanni Lombardo Radice (Bob); Daniela Doria (Rosie Kelvin); Fabrizio Jovine (Padre William Thomas); Janet Agren (Sandra); Luca Venantini (John-John Robbins); Michele Soavi (Tommy Fisher); Venantino Venantini (Mr. Ross); Enzo D'Ausilio; Adelaide Aste (Theresa); Luciano Rossi; Robert Sampson; Lucio Fulci (Dr. Joe Thompson)

  • NOTA: 9,0

sexta-feira, 19 de março de 2010

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (1978)

"O filme que verão é baseado na tragédia que assolou um grupo de cinco jovens, especialmente Sally Hardesty e seu irmão inválido Franklin. Foi mais trágico devido ao fato de serem jovens. Mas, se eles tivessem vivido muito, muito longas vidas, jamais teriam esperado ou desejado ter visto a loucura e o macabro que viram naquele dia. Para eles, um passeio de carro num verão à tarde tornou-se um pesadelo. Os acontecimentos daquele dia guiaram o descobrimento de um dos mais bizarros crimes nos anais da história norte americana, ''O Massacre da Serra Elétrica"



Assim começa aquele que é, indiscutivelmente, um dos grandes clássicos do cinema de horror. Você pode conversar com dez pessoas e, mesmo que oito não tenham visto o filme, com certeza já ouviram falar nele. O título é tão citado em outros filmes, dos mais diferentes gêneros, e até em piadas e jogos de videogame, que a obra acabou se transformando em "cultura pop".A horripilante narração no início do filme é feita por John Larroquette, sem fundo musical, com letreiros sobre um fundo preto, falando sobre os tais "crimes da serra elétrica do Texas", que teriam acontecido em 1973, como se fosse um fato real - coisa que os italianos adoravam fazer em seus filmes sobre canibalismo, mas, na verdade, é tudo ficção mesmo. Larroquette anuncia: "O crime é ainda mais chocante porque as vítimas eram jovens".

Depois, o diretor/roteirista Tobe Hooper, praticamente em sua estréia cinematográfica, filma uma assustadora e absolutamente genial abertura com flashes de máquina fotográfica... A escuridão da tela provoca arrepios no espectador, que ouve sons estranhos mas nada vê - algo que, quase 30 anos depois, seria usado também inventivamente em "A Bruxa de Blair". Aos poucos, flashes fotográficos vão iluminando detalhes de um corpo em decomposição... A cena vai crescendo em intensidade até que uma voz radiofônica ao fundo fala sobre vandalismos em um cemitério do interior do Texas. É o fim de qualquer sutileza. Um cadáver aparece sentado sobre uma lápide, como se Hooper estivesse falando diretamente ao espectador: "Apertem os cintos, agora começa a viagem direto ao inferno". O uso dos flashes fotográficos ficou tão bom que foi copiado na abertura das partes 3 e 4, sem bons resultados, obviamente.





O fato do filme inteiro ter sido rodado em 16 milímetros e depois ampliado é uma qualidade, e não um defeito. Fica aquela estética de filme amadorzão, caseiro, que dá um ar de realidade, de documentário ao filme, tornando-o ainda mais assustador. Acredito que, se tivesse sido filmado hoje, com câmera digital, imagem limpinha, enquadramentos OK, iluminação perfeita, perderia este mesmo impacto. E a produção baratíssima (míseros 140 mil dólares) ajuda a dar o tom de pobreza, forçando os produtores a usarem criatividade para driblar a falta de recursos.


A história mostra aquele velho passeio inocente que termina em pesadelo - argumento emprestado por Wes Craven no posterior "Quadrilha de Sádicos", que também tem uma família de canibais.
Cinco jovens vão passear em uma van pelo interior do Texas e cruzam com uma família de doidos canibais, em algo vagamente inspirado no caso do serial killer americano Ed Gein - o malucão que usava roupas e máscaras feitas com pele de cadáveres.
Durante a viagem - que tem como destino a velha casa de campo da família de Sally e Franklin -, a van com os cinco jovens passa por uma estrada deserta, cenário que depois seria utilizado em muitos outros filmes de horror - de "A Morte Pede Carona" a "Olhos Famintos". Ali, eles cometem o erro fatal de dar carona a um estranho, o maluco "Caroneiro" anônimo (Edwin Neal), que revela-se um psicopata. Ex-trabalhador de matadouro, o Caroneiro se diverte mostrando fotos de gado esquartejado para os amigos. Mas logo revela sua verdadeira natureza, cortando a própria mão violentamente e apunhalando Frank no braço, antes de ser expulso do veículo.

O grupo se apavora, pensando se o maluco poderia segui-los mas, mesmo assim, encontra a velha casa da família Hardesty, ponto de parada da viagem. Eles desconhecem que ali perto fica uma outra fazenda, praticamente escondida da civilização, onde moram o Cozinheiro (Jim Siedow), o maligno Caroneiro e o psicótico Leatherface (Gunnar Hansen), um demente assassino que usa máscaras de pele humana e diverte-se matando pessoas como se fossem gado, esquartejando-as em um pequeno matadouro montado no interior da casa, onde as vítimas são penduradas em ganchos de açougue, como meros pedaços de carne, e trucidadas com uma motosserra. A família mantém seu avô (John Dugan) em estado catatônico, meio vivo, meio morto, alimentando-o com sangue humano fresco retirado das vítimas.




Como outros filmes do período ("Halloween", por exemplo), "O Massacre da Serra Elétrica" não se entrega freneticamente a mortes sangrentas e sustos banais. Passam praticamente 50 minutos antes do primeiro dos jovens morrer, em uma cena arrepiante, chocante, que chega a pegar o espectador de surpresa, tal a brutalidade. Cabe ao jovem Kurt a "honra" de ser o primeiro abatido da história: ao checar a casa da família de canibais, ele ouve grunhidos de porco vindo do tal matadouro e, ao entrar no aposento, tropeça num degrau, sendo rápida e violentamente atingido com um golpe certeiro de marreta na cabeça, desferido por Leatherface - imitando o que faziam nos matadouros, com bois e porcos. O jovem cai e se contorce violentamente, com espasmos brutais provocados pelo golpe direto no cérebro, sendo prontamente liquidado com uma nova marretada no crânio.


Detalhando assim, parece um festival de sangue e violência, mas a verdade é que só vemos as duas marretadas na cabeça do jovem mostradas de longe, e nem uma gota do sangue arrancado pelos sucessivos golpes (algo que é mostrado da forma mais explícita e grosseira possível no posterior "O Massacre da Serra Elétrica 2", que ironicamente foi dirigido de forma herética pelo próprio Tobe Hooper!). Quando Leatherface agarra o cadáver do rapaz e puxa para dentro do matadouro, fechando rapidamente o portão de ferro, o espectador finalmente consegue soltar a respiração.

É claro que Hooper poderia ter mostrado a cabeça de Kurt arrebentada com a marretada, ou, depois, a lâmina da serra dilacerando a carne de uma vítima, mas certamente explicitar estas seqüências tiraria todo o impacto que elas têm do jeito que foram mostradas em "O Massacre da Serra Elétrica". Isso porque cabe ao espectador imaginar o tamanho do estrago de uma motosserra ou de uma marreta, imaginar o quão horrendo é morrer deste jeito, e aí sim ficar verdadeiramente assustado - ainda mais ao considerar que Leatherface e seus amigos fazem aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se as vítimas não fossem pessoas, mas sim pedaços de carne ambulantes. E sabe-se lá há quanto tempo vem fazendo isso, pois a propriedade da família tem vários carros abandonados escondidos sob uma lona...

Mas o auge do grotesco e do sinistro o diretor guarda para o final. É quando Sally, a heroína gritalhona do filme, é amarrada a uma cadeira para participar de um sádico jantar com a insana família de canibais. Cadeiras, lustres e "enfeites" da casa são feitos com pedaços de gente. O cardápio servido, também - provavelmente pedaços dos amigos de Sally estão nos pratos, mas o diretor não se preocupa em focalizar nojeiras ou pedaços de cadáveres, e sim o rosto completamente apavorado de Marilyn Burns, com closes rápidos dos olhos apavorados, arregalados, em um medo muito melhor encenado do que o de Heather Donahue décadas depois em "A Bruxa de Blair". Marilyn parece estar realmente vivendo a cena, apavorada, à beira da insanidade com tanta crueldade e depravação... Um desempenho surpreendente, que nos faz pensar em como a mocinha se preparou para o papel - e também em porque ela não teve mais e melhores chances no cinema! Falar mais sobre o filme é estragar a diversão que existe em saborear cada minuto deste banquete canibal. Não espere grandes doses de sangue ou efeitos de maquiagem à la Freddy Krueger. Mas prepare-se para muitos arrepios e, isso mesmo, MEDO. Uma palavra que há muito desapareceu do vocabulário dos filmes de horror e suspense. "O Massacre da Serra Elétrica" ainda se deu ao luxo de criar um sem-número de clichês que seriam aproveitados e reaproveitados à exaustão no cinema de horror durante os anos seguintes. Para começar, a trama de viajantes às voltas com uma família de canibais, que inspirou "Quadrilha de Sádicos", um obscuro (mas muito interessante) filme B chamado "Canibal" e o recente "Wrong Turn" (lançado no Brasil como "Pânico na Floresta").




Outra cena que virou clichê é aquela onde a mocinha tenta desesperadamente escapar da perseguição do assassino que, armado com a barulhenta motosserra, a persegue, primeiro dentro da casa, depois no meio da floresta escura. Lutando por sua vida, a garota pula da janela do segundo andar de uma casa e depois corre incessantemente pelo meio do bosque, em um momento que seria copiado depois em filmes como "Halloween" e "Sexta-Feira 13". A diferença é que nenhum deles conseguiu reproduzir o mesmo desespero da perseguição de "O Massacre da Serra Elétrica": nada de trilha sonora, seja ela sinistra ou rock pauleira, apenas os gritos da jovem e o ronco da motosserra, como se estivéssemos lá no meio da floresta junto com ela.


Dizer que você nunca viu nada igual não é exagero quando se fala em "O Massacre da Serra Elétrica". E eu concordo com a frase do trailer do filme, que diz: "Tão assustador quanto estar lá". Realmente, poucos filmes conseguem jogar o espectador em um pesadelo tão aterrorizante e violento. E fazer com que ele se sinta verdadeiramente aliviado ao dar "stop" e perceber que, na verdade, ele não está lá, mas seguro em casa. Seguro, sim... Mas até quando?







O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chain Saw Massacre, Estados Unidos, 1974). Vortex, 82 minutos,
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Kin Henkel e Tobe Hooper
Produção: Kim Henkel, Tobe Hooper, Jay Parsley, Lou Peraino e Richard Saenz
Música: Wayne Bell e Tobe Hooper
Fotografia: Daniel Pearl
Edição: Larry Carroll e Sallye Richardson
Direção de Arte: Robert A. Burns
Elenco: Marilyn Burns (Sally Hardesty), Allen Danziger (Jerry), Paul A. Partain (Franklin Hardesty), William Vail (Kirk), Teri McMinn (Pam), Edwin Neal (Hitchhicker), Jim Siedow (Old Man), Gunnar Hansen (Leatherface), John Duggan (Grandfather), Robert Courtin, William Creamer, John Henry Faulk, Jerry Green, Ed Guinn, Joe Bill Hogan, Perry Lorenz, John Larroquette (narrador da introdução).
Gêneros: Suspense, Terror
Classificação Indicativa: 16 anos

JUNGLE HOLOCAUST (1977)


Nem todo mundo sabe, mas no ano de 1977, antes de provocar admiração (e náuseas no público) com o grande clássico CANNIBAL HOLOCAUST, o popular diretor italiano Ruggero Deodato já havia excursionado para a selva com seus amigos canibais em uma produção que, acima de um filme de terror, é uma história legítima de aventura e sobrevivência em meio às adversidades. Uma produção violenta, mas que valoriza muito mais a história e o entretenimento.Originalmente batizado de ULTIMO MONDO CANNIBALE, esta produção recebeu inúmeros nomes diferentes conforme a época e o local de lançamento como quase todos os filmes de terror italianos deste período; entre os mais famosos estão o simplesmente Cannibal, Carnivorous, En El Infierno Cannibal, The Last Survivor, Mondo Cannibal, e, depois da explosão comercial de CANNIBAL HOLOCAUST, virou JUNGLE HOLOCAUST, como é mais conhecido atualmente e assim será citado daqui para frente. No Brasil incrivelmente o filme foi lançado não apenas uma, mas três vezes em VHS e todas com títulos diferentes: A distribuidora Omni lançou-o como O ÚLTIMO MUNDO DOS CANIBAIS, o selo Cine Art Pictures como FASES DA MORTE 8 - O ÚLTIMO MUNDO DOS CANIBAIS e finalmente MUNDO CANIBAL pela Century Video.



JUNGLE HOLOCAUST (MUNDO CANIBAL) foi rodado em sua maioria na Malásia, e para chegar ao vilarejo mais próximo a equipe de filmagens precisava navegar por 6 horas de canoa. Assim, por várias semanas, os atores e a produção necessitavam acampar na floresta, tornando a experiência também uma aventura à parte, escrevendo mais um capítulo nas peculiares e pouco recomendáveis películas italianas sobre canibalismo.





O filme abre com um pequeno avião sobrevoando uma imensa e fechada selva, afirmando que os fatos a seguir são reais - mas, na verdade, trata-se de mais um filme de ficção obviamente. O pequeno monomotor possui quatro tripulantes: o empreendedor do ramo petrolífero Robert Harper (Massimo Foschi), seu amigo Rolf (Ivan Rassimov de EATEN ALIVE, SHOCK de Mario Bava e OS CAÇADORES DE ATLÂNTIDA também de Deodato) e o casal de guias Charlie (Sheik Razak Shikur) e Swan (Judy Rosly). O objetivo de Harper é encontrar alguns colegas em um entreposto, onde procuram petróleo e estão acampados nas redondezas.Todavia quando estão pousando, o avião é avariado e tudo o que encontram são barracas vazias e um rádio quebrado. Lanças encontradas fazem os tripulantes acreditarem que foram nativos os responsáveis pelo sumiço dos colegas de Harper; não tarda muito e a dupla de amigos também encontra um corpo decomposto para confirmar suas suspeitas.





Então anoitece e Charlie já não pode mais levantar vôo, precisando dormir na clareira à margem dos animais selvagens e dos canibais que sorrateiramente circundam o avião. Swan é a primeira a ser fisgada quando sai para "atender ao chamado da natureza", mas mesmo com a situação ameaçadora os três homens decidem ficar onde estão e esperam amanhecer para procurar a namorada de Charlie.No dia seguinte, o grupo se embrenha no mato. Agora é Charlie quem padece em uma armadilha dos nativos. Esta seqüência de eventos dá o tom acelerado desta primeira parte, pois dois dos quatro personagens principais são despachados com menos de 15 minutos de filme!
Os dois sobreviventes perambulam mais um pouco sem saber ao certo o que fazer e logo avistam nativos fazendo uma "boquinha" com o que parece ser os restos mortais de Swan. Esta cena nos revela a primeira visão dos canibais, com uma particularidade: apesar de usar nativos de verdade para a concepção da tribo canibal, Ruggero necessitou que fossem confeccionadas perucas para eles, porque seus cabelos eram curtos e bem asseados, não lembrando nem de longe o jeito desmazelado e primitivo que o diretor queria passar. Uma outra curiosidade é que na versão original italiana de cinema esta seqüência era exibida com uma legenda escrita "cena real" para dar impressão que era uma pessoa de verdade sendo comida! Hahahaha... Esses carcamanos são mesmo uns fanfarrões...Rolf e Harper chegam ao rio, constroem uma canoa de bambus - que milagrosamente são cortados verdes e ficam amarelos na água - e enfrentam as violentas corredeiras. Para não tornar a gravação ainda mais perigosa, pois naquele tempo a italianada praticamente não utilizava dublês, o jeito era apelar para a edição na seguinte ordem: água é jogada no rosto dos protagonistas, a embarcação acerta uma pedra, Ivan Rassimov aparece boiando no leito do rio e o barquinho desce as corredeiras vazio. Ao final o uso deste recurso de baixo orçamento é engraçado por ser rústico, contudo não deixa de ser válido e realista.






Rolf desaparece no acidente com o rio, sendo dado como morto por seu companheiro, e Harper tem que se virar do jeito que pode e caminha a esmo pela selva. Nestas andanças o homem come alguns cogumelos, tem uma dor de barriga terrível e desmaia. Ao acordar está envolto pelos canibais armados de lanças, porém tem uma sorte melhor que Swan e é levado como prisioneiro para a caverna onde vive a tribo.Amarrado em uma pedra, o empreendedor é despido pelos nativos - homens preparem-se - e tem a cueca arrancada por outra carinha conhecida dos filmes de canibais, Me Me Lai ( MAN FROM DEEP RIVER, EATEN ALIVE), aqui interpretando a personagem Pulan. Depois do choque inicial do espectador masculino ao que ver o bigulim de Massimo Foschi, Harper descobre que é mantido vivo pois os selvagens pensam que pode voar, porque veio do céu, e o erguem até o alto da caverna, onde é largado várias vezes (quem diria que o bungee jump foi inventado por uma tribo canibal,he,he.






Sem conseguir "voar", Robert é mantido em cativeiro. Desesperado, subnutrido e sofrendo toda a sorte de humilhações, vê uma última chance de fugir ao atrair a simpatia de Pulan e a ingenuidade das crianças. Assim Harper consegue escapar, todavia sua segurança continua longe de estar assegurada, afinal há uma tribo selvagem atrás dele e de Pulan - e sobreviver nesta selva não será fácil.

Com um teor extremamente menos chocante que as produções posteriores do gênero ainda, consegue colocar uma nota a mais de aventura e sobrevivência, o que deve decepcionar quem procura as doses cavalares de sadismo características de Ruggero Deodato, que imprime uma técnica excelente e um ritmo significativamente mais lento na segunda metade.









Contudo isto não significa que sua apresentação seja pouco violenta. Pelo contrário, causou um grande furor para os censores que meteram a tesoura nos fotogramas sem dó nem piedade. Por exemplo, a versão completa do filme possui 92 minutos, para ser lançado na Inglaterra foram cortados 5 minutos e nos Estados Unidos e na Austrália o corte chegou a 10 minutos! Permanecendo retalhado até 2001 quando a distribuidora Shriek Show lançou a primeira versão sem cortes do filme nos States.

Grande parte desta polêmica é a mesma básica de CANNIBAL HOLOCAUST: a violência contra animais. Só que ao menos desta vez o diretor jura de pés juntos que não teve absolutamente nada a ver com isto. Segundo Ruggero, o produtor Giorgio Carlo Rossi (que faz uma ponta como piloto do avião de resgate) no intento de "apimentar" mais a película por causa do mercado oriental filmou por conta própria cenas com crueldade com animais na selva contra a vontade do ator Massimo Foschi e do próprio Deodato, de forma que ficou do jeito do produtor. Como foram inseridas após as filmagens, elas soam gratuitas e totalmente fora de contexto. Vendo o filme trinta anos depois de sua realização, estas partes não são tão ofensivas para quem já é acostumado com esta categoria de película, por se tratar na maioria de "animal versus animal", exceção feita ao crocodilo que é esfolado vivo com o máximo de grafismo.

O sucesso de JUNGLE HOLOCAUST pavimentou a via do diretor Ruggero Deodato para seus próximos e importantes projetos, sendo fundamental para o cinema italiano do final dos anos 70 até o início dos 80, além de servir de "inspiração" para outra interessante produção OS VIVOS SERÃO DEVORADOS/EATEN ALIVE do diretor Umberto Lenzi, que também vai ser comentado aqui no Blog em outro artigo.




  • MUNDO CANIBAL (Ultimo Mondo Cannibale/Jungle Holocaust, Itália, 1977). Duração: 92 minutos
    Direção: Ruggero Deodato
    Roteiro: Tito Carpi; Gianfranco Clerici; Renzo Genta
    Produção: Giorgio Carlo Rossi
    Desenho de Produção: Walter Patriarca
    Edição: Daniele Alabiso
    Maquiagem: Marcello Di Paolo
    Efeitos Especiais: Paolo Ricci Música: Ubaldo Continiello
    Fotografia: Marcello Masciocchi
    Elenco: Massimo Foschi (Robert Harper); Me Me Lai(Pulan); Ivan Rassimov (Rolf); Sheik Razak Shikur (Charlie); Judy Rosly (Swan)
    Gêneros: Aventura, Terror