terça-feira, 2 de março de 2010

CANNIBAL FEROX (1981)



"O filme que você verá agora é um dos mais violentos já realizados. Há pelo menos duas dúzias de cenas de torturas bárbaras e sádica crueldade, mostradas de forma explícita. Se você fica chocado com a apresentação de material repulsivo, por favor, não veja este filme."













































Em letras garrafais vermelhas, sobre um fundo negro, com a narração tétrica em inglês de uma garota, é com este aviso que inicia CANNIBAL FEROX, filme italiano de 1981, um dos mais conhecidos filmes de horror realizados dentro do ciclo italiano de filmes sobre canibalismo - também é conhecido como MAKE THEM DIE SLOWLY, ou "Faça com que Eles Morram Lentamente", já dando uma idéia do que esperar do "enredo". Ao mesmo tempo, o título original poderia ser traduzido para "Ferocidade Canibal" ou "Fúria Canibal".

Esta produção de Umberto Lenzi é famosa justamente pela propaganda negativa relativa ao filme. Não bastasse o tal aviso sobre o conteúdo da obra, o cartaz ainda exibe, em letras garrafais: "Banido em 31 países!". E usam isso como motivo de orgulho! Dizem até que CANNIBAL FEROX está no Guiness, o Livro dos Recordes, por causa desta grande "façanha" de conseguir ser proibido em 31 países - como não tenho o Guiness, não posso dizer se é verdadeira a informação ou apenas marketing feito pelo diretor Lenzi. Para concluir, CANNIBAL FEROX é tão ultrajante, baixo, apelativo e sanguinário que teve o "mérito" de acabar definitivamente com o ciclo italiano sobre canibalismo, quando os cineastas e produtores que apostavam no filão começaram a perceber que estavam indo longe demais. Atualmente, a "má fama" de CANNIBAL FEROX é tão grande ou maior que a do clássico CANNIBAL HOLOCAUST, a perturbadora pérola da violência explícita perpetrada por Ruggero Deodato em 1979 - que chegou a inspirar (os produtores dizem que não) o filme americano A BRUXA DE BLAIR, lançado exatos 20 anos depois.

Por mais que os ecologistas e politicamente corretos encham o saco, em filmes como CANNIBAL HOLOCAUST e A MONTANHA DOS CANIBAIS (de Sergio Martino) as cenas de violência envolvendo animais se matando ou sendo mortos por homens estão dentro de um contexto de local (selva) e personagens (índios, selvagens). Além disso, a matança verídica confere um status de "documentário" aos filmes, fazendo com que se tornem assustadoramente reais. Ao ver índios em um filme matando e devorando realmente um pobre animal, quase acreditamos que eles são mesmo canibais!!!

Entretanto, CANNIBAL FEROX exagera na dose. São sete cenas de animais sendo mortos ou se matando, infelizmente sem qualquer relação com a trama. Às vezes, os personagens estão passeando pela selva, param e ficam olhando para algo, então Lenzi corta para uma cena de um animal sendo morto. Na aldeia dos canibais, os índios matam animais sem qualquer razão, já que o verdadeiro banquete são os humanos prisioneiros. São cenas que estão ali apenas para chocar gratuitamente o espectador (e chocam), mas principalmente para tentar fazer realmente "o filme mais violento de todos os tempos". Tudo bem que as cenas de violência contra "humanos" também são fortes e chocantes, mas pelo menos nós sabemos que é tudo "de brincadeira" e ninguém está morrendo de verdade. Infelizmente, os pobres bichos tiveram que ser sacrificados para Lenzi poder encher seus cofres com gorda bilheteria.

Mas afinal, CANNIBAL FEROX é ou não é o filme mais violento de todos os tempos??? Talvez seja. Pela quantidade de cenas envolvendo sangue e violência, pela ferocidade, pela selvageria, pela total falta de ética e moral, pela matança descabida de animais, é, sim. Mas descontando as cenas reais dos animais sendo mortos, os efeitos especiais da matança de gente são meio fracos, e na maioria das vezes anula qualquer efeito de choque ou repulsa, às vezes até provocando risos.

Vendo que o filme faturou uma boa grana, Lenzi resolveu apelar e saiu com o grosseiro CANNIBAL FEROX em 1981. Ninguém mais quis competir com ele. O ciclo de filmes sobre canibalismo estava oficialmente terminado. Ainda bem, pois mais cedo ou mais tarde estariam matando gente de verdade em busca do filme mais chocante!

CANNIBAL FEROX começa em Nova York, uma selva de pedra, conforma Lenzi parece mostrar ao espectador (ele, além de diretor, é autor do roteiro, que tem alguns diálogos "fantásticos", assim mesmo, entre aspas). Um jovem drogado, Tim Barrett, caminha pelas ruas "civilizadas" da cidade enquanto rolam os créditos iniciais. Vai até um velho prédio de apartamentos e entra naquele que pertence ao seu amigo e fornecedor de cocaína Mike Logan (o personagem de Morghen/Radicci; o ator trabalhou com a maioria dos diretores italianos de horror da época, tipo Lucio Fulci em PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS, Antonio Margheritti em CANNIBAL APOCALYPSE e Michele Soavi em A CATEDRAL e O PÁSSARO SANGRENTO). Mas lá TIm não encontra o compadre, e sim dois mafiosos linha-dura, daqueles que te chamam de "shitface" e ficam te dando bordoadas por qualquer coisinha. Um deles é interpretado por Perry Pirkanen, o cinegrafista loiro que supostamente morreu "de verdade" em CANNIBAL HOLOCAUST, de Deodato. Em tempo: ele não é creditado.

Os dois mafiosos estão à procura de Logan, que aparentemente deve muito, mas muito dinheiro para eles. Tim não sabe onde o amigo está, e paga com a vida, levando um tiro no peito. A polícia logo chega ao local do crime, com o tenente Rizzo (Robert Kerman, de CANNIBAL HOLOCAUST e OS VIVOS SERÃO DEVORADOS) chefiando a investigação. Ele descobre que o dono do apartamento tem uma namorada, Myrna Strand (Meg Fleming, ou melhor, Maria Fiamma Maglione), e começa a procurar por ela para saber sobre o pardeiro de Mike Logan. Isso tudo, na verdade, tem pouca ou nenhuma relação com o que acontece depois. Sinceramente, acho que Lenzi só filmou estas poucas cenas em Nova York (depois tem mais) para dar um ar de "produção americana" ao seu filme (tanto que a maioria dos atores se esconde atrás de pseudônimos americanos).

O filme imediatamente corta para a Amazônia, no lado colombiano da floresta, onde três jovens americanos chegam a uma pequena vila. Eles são os nossos heróis, Gloria Davis (Lorraine De Selle, que trabalhou com Bruno Mattei em EMANUELLE REPORTS FROM A WOMEN´S PRISON), seu irmão Rudy (Bryan Redford, ou melhor, Danilo Mattei, provavelmente parente do nosso amado Bruno) e a amiga piranha e gostosa Pat Johnson (Zora Kerova, que apareceu no violentíssimo ANTROPOPGAHOUS, de Joe D´Amato). Gloria é antropologista e está se formando na faculdade, por isso resolveu apresentar uma tese, no trabalho de conclusão, argumentando que o canibalismo não existe, é apenas um preconceito da sociedade civilizada contra as tribos primitivas. Seu objetivo é chegar a uma tribo, a dos índios Manyoka, que vive bem no meio da selva, e que foi retratada como comedora de carne humana por uma revista americana. Gloria pretende, assim, provar que não existem verdadeiros canibais no mundo moderno. O irmão Rudy e a amiga Pat resolveram acompanhá-la.


Vamos apenas dizer que é uma idéia de jerico três jovens americanos manés, sem qualquer experiência na selva, entrarem numa floresta com um mínimo de equipamento e víveres, e sem ao menos um guia indígena para saber como regressar à civilização. Mas tudo bem, isso é cinema... Enquanto Pat transa com um policial da cidadezinha só para poder tomar uma ducha na casa dele, os irmãos Davis providenciam transporte de balsa para eles e seu jipe até a outra margem do Rio Amazonas, no lado mais selvagem da floresta. Na balsa, um nativo dá a Gloria um pequeno furão, dizendo que é para dar sorte na selva fechada.
Não passam 15 minutos de filme e o trio de heróis se coloca numa verdadeira encrenca, quando o jipe em que estão "desbravando" a selva atola num lamaçal. Contrariando completamente o bom senso, o grupo resolve se embrenhar mais e mais no meio da floresta, ao invés de dar meia volta e "era isso"! Claro, se eles voltassem para a civilização, não teríamos filme! À noite o grupo acampa e, de manhã bem cedinho, somos brindados com uma revoltante cena de violência animal, quando o furão que Gloria ganhou de presente, amarrado a um toco, sem poder fugir, é "abraçado" e devorado por uma enorme jibóia. Lenzi alterna cenas do bicho sendo morto com os olhares chocados dos seus ,"heróis". Também somos brindados com uma cena de um velho índio comendo (de verdade) umas enormes e nojentas larvas. Embrenhando-se ainda mais na selva, o grupo encontra uma dupla de americanos. Um deles é o próprio Mike Logan (lembram do início do filme, em Nova York?). Ele leva o amigo ferido, Joe Costolani (Walter Lloyd, ou melhor, Walter Lucchini), que se locomove com dificuldade. E Mike conta aos três compatriotas uma história assustadora: ele, Joe e um terceiro amigo foram aprisionados por uma tribo de canibais, a mesma que Gloria foi procurar, sendo torturados brutalmente até conseguirem escapar.
É claro que o trio resolve ajudar os dois amigos sem sequer desconfiar de que por trás da cara-de-pau de Logan esconde-se um sujeito violento, sangue-frio e viciado em cocaína. E Lenzi continua mostrando cenas de violência contra animais sem relação. Primeiro é uma onça que abocanha e devora um macaquinho. Depois, um porco dentro de uma armadilha de animais é brutalmente esfaqueado por Logan. Enfim, os cinco americanos chegam à aldeia relatada por Mike e Joe. Ela está praticamente vazia: aparentemente, os guerreiros mais jovens saíram para caçar. No local ficaram apenas os velhos, crianças e mulheres. E todos estão apavorados com o grupo de "caras pálidas" que se aproxima. Rudy não imagina porquê, mas quando encontra um corpo mutilado e decomposto amarrado a uma estaca, percebe que Logan falava a verdade (ou melhor, a sua versão da verdade).
Como Joe, ferido, está sem condições de continuar em frente (a febre está alta, como é comum neste tipo de filme), o grupo resolve acampar por um tempo na aldeia, pois aparentemente os índios que lá ficaram são inofensivos - afinal, continuam apavorados. A putinha Pat logo arrasta sua asa para perto de Mike, dividindo com ele a cama (nudez gratuita, oba!) e a cocaína. Quando Logan mata uma jovem nativa com um tiro, a sangue-frio, sem motivo algum, provoca a fúria de Rudy. Então ele e a irmã passam a desconfiar que há alguma coisa de errado na história do rapaz. Mas não têm muito tempo para pensar, pois Mike foge levando Pat. Joe está à morte e resolve confessar toda a verdade para os irmãos Davis. Na verdade, não foram os canibais que torturaram ele, Mike e o terceiro amigo. Joe e Mike desembarcaram na Amazônia fugindo da máfia de Nova York (como vimos no início), e em busca de uma fortuna em esmeraldas na selva. Para isso, Mike contratou um guia da tribo Manyoka. Mas, para descobrir a jazida de pedras preciosas, resolveu torturá-lo em sua própria aldeia, amarrando-o a um poste e fazendo-o passar por uma longa sessão de violência (é dele o cadáver decomposto). A cena, contada em flashback, mostra Logan primeiro castrando a vítima, depois arrancando um de seus olhos com a ponta da faca.
Por isso Mike e Joe estavam fugindo. Por isso os jovens da aldeia não estavam por lá. Eles saíram para caçar sim, mas foi para caçar, e matar, os invasores. Não demora muito para os canibais voltarem à aldeia. Joe, por sorte, já bateu as botas. Ele é devorado assim mesmo pelos índios, que abrem seu peito com uma lança, retirando seus órgãos internos para o banquete. Os outros todos, incluindo Mike e Pat, são aprisionados. Reconhecido como o grande culpado pelo sofrimento e morte na aldeia, Logan é amarrado ao mesmo poste onde anteriormente tinha torturado o guia indígena, seu pênis é colocado para fora e sumariamente decepado com um machete. Quem não agüenta cenas de castração vai ter um motivo a mais para não ver essa: após feito o serviço, o canibal com o machete come o pedaço de pênis cortado!!!!!!
Como diz o título alternativo do filme, "Faça com que Eles Morram Lentamente". Mesmo sem nenhuma culpa na história, Rudy, Gloria e Pat também são aprisionados e irão sofrer a fúria dos índios. Estes, por sua vez, não querem matar seus prisioneiros de começo. Eles querem que o grupo sofra, como eles também sofreram, para aprender a nunca mais invadirem uma aldeia de canibais. Por isso, eles tratam o ferimento de Logan para que ele não morra por hemorragia e possa suportar mais uma dose de tortura e sadismo. Brrrrr... Enquanto Gloria, Rudy e Pat estão presos dentro de uma gaiola de bambu dentro do rio, cobertos de sanguessugas, Lenzi mostra mais algumas cenas de animais se matando. Primeiro, uma iguana matando uma cobra. Depois, os canibais matando e comendo uma enorme tartaruga (cena que rivaliza, em mau gosto, com aquela de CANNIBAL HOLOCAUST), e depois ainda os canibais matando e comendo um jacaré! Pobre mãe natureza...

Amanhece e os canibais resolvem levar seus prisioneiros, de barco, para outra aldeia próxima. Rudy avisa Gloria e Pat para escaparem, pois ele vai tentar distrair a atenção dos canibais. Isso acontece e todos fogem, sendo rapidamente recapturados. Só Rudy que aparentemente tem chances de fuga. Infelizmente, ele se esconde em um charco repleto de piranhas. Elas começam a devorar sua perna e o rapaz se vê obrigado a gritar, denunciando seu esconderijo. Quando os canibais se aproximam, ele está com a perna em carne-viva, meio carcomida. Os índios resolvem acabar com seu sofrimento (ou então puní-lo, pela tentativa de fuga), disparando uma seta envenenada no seu peito, matando-o instanteamente. Para a sorte dele, logicamente, pois, como Joe, ele escapará das violentas torturas previstas para a parte final da história.

Umberto Lenzi é um diretor sem sutilezas. Se está no roteiro que a mão de alguém tem que ser decepada, ele não economiza na violência: mostra, graficamente, a mão sendo decepada, com todo o sangue a que tem direito. Nada de violência sugerida ou implícita, nada de câmera desviando do alvo nas cenas sangrentas. A ordem aqui é ser o mais gráfico possível.

Pior destino tem outro dos personagens centrais (vamos deixar o mistério no ar), que tem o topo da sua cabeça cortado com um machete, e os canibais comem seu cérebro como se fosse pipoca!!! É a cena mais realista e nojenta de CANNIBAL FEROX e uma das melhores mortes do cinema de horror italiano - e esqueça aquela bobagem com o cérebro de Ray Liotta sendo frito no HANNIBAL, de Ridley Scott.

Lenzi consegue alguns momentos bem fortes e dramáticos. Em um deles, o personagem de Morghen consegue fugir do cativeiro e corre pela floresta. É quando avista um pequeno avião, que está sobrevoando a selva em busca do grupo desaparecido. Ele grita e acena os braços, e o espectador por um momento até se solidariza com o personagem, mesmo ele sendo um vilão filha da puta (mas ele já foi até castrado, pô!). Enfim, você chega a torcer para que o piloto enxergue o pobre bastardo e desça para salvá-lo daquele inferno verde... mas é claro que isso não vai acontecer! Outra cena dramática é aquela em que Gloria e Pat estão aprisionadas numa caverna e, para vencer o desespero da situação, começam a cantar (lembrem-se: quem canta, seus males espanta). A triste música entoada pelas duas, em tom de lamento, sai do cativeiro e se espalha pela aldeia, onde os canibais estão preparando o festival de torturas para o dia seguinte... Mas o momento mais chocante, que realmente deixa o espectador arrepiado, é aquele em que Gloria, olhando para a condição de Pat pendurada pelos seios, reza em voz alta pedindo a Deus que faça a amiga morrer rapidamente - e pedindo também para ela mesma uma morte rápida na seqüência.
Resumindo, CANNIBAL FEROX é um exercício de exagero, sadismo e mau gosto, com pouco ou nenhum valor cinematográfico (o ritmo é arrastado, as interpretações apenas razoáveis e a direção é quase nula), mas mesmo assim interessante para os fãs de horror. É um filme que não é feito para divertir, mas sim para chocar - o próprio Umberto Lenzi assumiu, em entrevistas recentes, que não encara sua obra como "entretenimento".

  • CANNIBAL FEROX (Cannibal Ferox, Itália, 1981). 95 minutos Direção e Roteiro: Umberto Lenzi
  • Produção: Mino Loy e Luciano Martino
  • Produção Executiva: Antonio Crescenzi
  • Fotografia: Giovanni Bergamini
  • Música: Roberto Donati e Maria Fiamma Maglione
  • Edição: Enzo Meniconi
  • Desenhos de Produção: Giuseppe Bassan
  • Elenco: Giovanni Lombardo Radice (Mike Logan - como John Morghen); Lorraine De Selle (Gloria Davis); Danilo Mattei (Rudy Davis - como Bryan Redford); Zora Kerova (Pat Johnson - como Zora Kerowa); Walter Lucchini (Joe Costolani - como Walter Lloyd); Maria Fiamma Maglione (Myrna Strand - como Meg Fleming); Robert Kerman (Lt. Rizzo); John Bartha (Brooklyn Mobster); Venantino Venantini (Sgt. Ross)
  • Distribuidora: Não definida
  • Gênero: Aventura, Terror

  • NOTA: 8,5

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